Chefe de agência da ONU explica como crise em Teerã pode impactar potencial energético


O conflito no Oriente Médio e as implicações para o setor energético levaram a ONU a formar uma força-tarefa para lidar com os efeitos humanitários da crise.

O secretário-geral das Nações Unidas escolheu um português para chefiar a iniciativa, o diretor executivo do Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos, Unops, Jorge Moreira da Silva.

Agência Internacional de Energia

Nesta entrevista exclusiva à ONU News, Moreira da Silva afirma que o momento atual vai além de uma crise de fornecimento, mas realça uma profunda nova organização geopolítica.

“A experiência diz-nos, olhando para choques anteriores na área de energia, choques petrolíferos dos anos 70, 80, depois na década de 2000 e depois nesta década, devido à guerra na Ucrânia. Todos estes choques petrolíferos demonstram que três coisas acontecem, normalmente a seguir a choques de energia. Este choque que estamos a viver hoje é o maior choque na área energética que há registo, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Portanto, três coisas normalmente acontecem, eficiência, os países, as empresas, os cidadãos adotam soluções mais eficientes de consumo de energia, segundo diversificação, os países e as empresas optam por diversificar as fontes de energia e as rotas de energia, terceiro, esverdeamento: mais penetração de energias que provoquem menos dependência da importação.”

Com a atual interrupção no fluxo energético do Estreito de Ormuz, como resultado da piora do conflito no Irã, as rotas tradicionais de abastecimento colapsaram. A situação força vários países a buscarem novas alternativas. 

Língua portuguesa

O Brasil já ampliou o envio de energia para a China, enquanto Angola e Timor-Leste mantêm operações petrolíferas em seus territórios. No setor do gás natural, Moçambique desponta como promessa energética após descobrir novas reservas.

Neste cenário, como países de língua portuguesa se consolidariam como um pilar estratégico para a segurança energética global? 

Jorge Moreira da Silva alertou para a necessidade de uma visão estrutural, argumentando que a história ensina que choques desta magnitude não devem resultar apenas em um aumento desenfreado da produção de petróleo. 

“Eu espero, ou espera-se, que este tipo de reação também venha a ocorrer. Mas também temos que procurar perceber o que é que aconteceu com a pandemia, porque foi há muito pouco tempo. A pandemia provocou uma disrupção também das cadeias de valor do supply chain, em várias áreas, incluindo a área da agricultura. E o que é que aprendemos com a pandemia? Interdependência, uma crise pode ser acionada num ponto e vai ser percepcionada em todo lado. Portanto, todos nós juntos estamos totalmente interdependentes. Em segundo lugar, a fragmentação das cadeias de valor e fragmentação na recuperação, com os países mais pobres a serem mais impactados e as pessoas mais pobres dentro de cada país a serem mais impactadas. Tendo por base esta lógica, é evidente que vai ser muito importante perceber como é que os países vão ser cada vez mais resilientes.”

Solução política para o Estreito de Ormuz

Para a realidade das nações que conseguem ter uma produção energética, o verdadeiro desafio e a maior oportunidade reside em um equilíbrio delicado ao planear o futuro. 

Por isso, o líder da força-tarefa Jorge Moreira da Silva defende que a resposta à crise atual deve ser pautada pela eficiência energética, pela diversificação de fontes e, acima de tudo, por uma transição ecológica acelerada que não deixe esses países vulneráveis a futuras instabilidades.

“Isso é médio e longo prazo, porque vai precisar de investimentos, de políticas públicas, mas depois há o curto prazo, e o curto prazo são as tais soluções que estivemos a falar para a reabertura do Estreito de Ormuz, porque aquilo que nós não despendermos no curto prazo, numa solução política para a reabertura do Estreito de Ormuz, vamos acabar a pagar com um valor muito mais alto, em ajuda humanitária, para debelar e mitigar os efeitos da fome.”

 Um navio de carga está atracado no porto de Vigo, na Espanha

Um navio de carga está atracado no porto de Vigo, na Espanha

Resiliência para sobrevivência

Moreira da Silva destaca que o foco das políticas públicas no mundo, incluindo nos países lusófonos, precisa mudar da simples expansão extrativista para a construção de uma resiliência sistêmica. 

O diretor do Unops defende que o desenvolvimento sustentável não é apenas uma meta ambiental, mas uma ferramenta de proteção social e econômica. As lições deixadas pela pandemia ainda ecoam traduzidas por cadeias de suprimento frágeis e interconectadas. Os mais pobres são sempre os primeiros a sofrer o impacto dos choques globais. 

A conclusão é que ao investir em infraestrutura robusta e segurança nas cadeias agrícolas, os países podem transformar a situação atual em um legado de liderança estável e duradoura no novo cenário mundial.

*Eleutério Guevane é jornalista sênior da ONU News.



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