Notimp 113 de 23/04/2025 – Força Aérea Brasileira


No dia 22 de abril de 1945, há exatos 80 anos, um grupo de jovens aviadores brasileiros escreveu uma das páginas mais gloriosas da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Sobre os céus do norte da Itália, o 1º Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira (FAB) realizou seu maior esforço em um único dia de combate, voando 11 missões de ataque (44 surtidas) em apenas 24 horas. Com apenas 22 pilotos disponíveis, a unidade lançou-se corajosamente contra alvos inimigos na região do Vale do Rio Pó, destruindo infraestrutura vital e infligindo pesadas perdas materiais ao adversário. Não por acaso, 22 de abril foi consagrado pela FAB como o Dia da Aviação de Caça, em homenagem a esse feito histórico e aos heróis que arriscaram suas vidas naquele dia.

O Brasil na Segunda Guerra Mundial e a criação do 1º Grupo de Caça

O Brasil manteve-se neutro no início da Segunda Guerra, mas sua posição mudou após ataques de submarinos do Eixo a navios mercantes brasileiros em agosto de 1942. Em resposta ao torpedeamento de várias embarcações e à morte de centenas de civis na costa brasileira, o país declarou guerra às potências do Eixo em 22 de agosto de 1942. Decidido a contribuir com o esforço Aliado, o governo de Getúlio Vargas organizou a Força Expedicionária Brasileira (FEB) em 1943 – um contingente que incluía uma divisão de infantaria do Exército e unidades da recém-criada Força Aérea Brasileira. Entre essas unidades aéreas estava o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa), instituído oficialmente pelo Decreto-Lei nº 6.123 de 18 de dezembro de 1943, tendo o Major-Aviador Nero Moura nomeado como seu comandante.

Formado por voluntários, o 1º GAvCa passou por um rigoroso treinamento em parceria com os americanos. No início de 1944, um grupo inicial de 16 pilotos e 16 graduados seguiu para os Estados Unidos para aprender táticas de combate aéreo e operar em conjunto com esquadrões norte-americanos. Os brasileiros treinaram em aviões Curtiss P-40 Warhawk e participaram da defesa aérea do Canal do Panamá, voando em missões de patrulha ao lado de unidades da USAAF. Em junho de 1944, já integrados como unidade autônoma, tiveram o primeiro contato com o caça-bombardeiro Republic P-47D Thunderbolt, a aeronave que utilizariam no teatro de operações europeu. Após completar cerca de três meses de treinamento no P-47, todo o contingente – incluindo pilotos, mecânicos e pessoal de apoio, num total de aproximadamente 400 brasileiros – embarcou de navio para a Itália, desembarcando no porto de Livorno em outubro de 1944.

Batismo de fogo na Itália e campanha no norte da Itália

Integrado à Força Aérea do Exército dos EUA (USAAF), o 1º Grupo de Caça foi designado como “1st Brazilian Fighter Squadron” e incorporado ao 350th Fighter Group (12th Air Force) assim que chegou à Itália. Sua base inicial de operações foi o aeródromo de Tarquínia, ao norte de Roma, onde os pilotos brasileiros realizaram missões de familiarização voando como ala em esquadrilhas americanas. Em 31 de outubro de 1944, iniciaram os voos de adaptação, e logo no 11 de novembro de 1944 aconteceu a primeira missão de combate do grupo como unidade independente, em operações de reconhecimento armado. A partir de então, adotando o indicativo de chamada “Jambock”, os brasileiros passaram a executar regularmente ataques contra alvos inimigos na Itália. Em poucas semanas, o grupo intensificou as missões de interdição (bombardeio contra alvos táticos), atacando pontes, estradas, depósitos de suprimentos e concentrações de tropas inimigas, especialmente no Vale do rio Pó.

No início de dezembro de 1944, acompanhando o avanço Aliado, o 1º GAvCa deslocou-se para a base de Pisa (aeródromo de San Giusto), mais próxima à linha de frente (cerca de 50 km). Dali, operando diariamente, os P-47 da FAB apoiavam as ofensivas terrestres com ataques de apoio aproximado e interdição, cortando linhas de suprimento alemãs e isolando guarnições inimigas. Para aumentar seu poder de fogo, em fevereiro de 1945 as aeronaves receberam lançadores de foguetes de 4,5 polegadas, adicionando-se aos armamentos já utilizados (bombas de 500 libras e metralhadoras .50). As duras condições de combate – incluindo clima adverso, intensa artilharia antiaérea inimiga e o desgaste pelo uso constante – cobraram seu preço: ao final de março de 1945, várias baixas tinham reduzido o efetivo de pilotos disponíveis. Alguns aviadores brasileiros haviam sido abatidos (mortos ou capturados como prisioneiros de guerra) e outros afastados por motivos de saúde, a ponto de uma das quatro esquadrilhas originais do grupo precisar ser extinta e seus remanescentes redistribuídos. Com reforços escassos vindos do Brasil, os pilotos restantes mostraram enorme determinação ao manter o ritmo das operações, mesmo exauridos, para cumprir todas as missões designadas.

Nesse cenário, abril de 1945 marcou a fase final da campanha aliada na Itália. O Alto Comando Aliado lançou a chamada “Ofensiva da Primavera”, um último grande esforço destinado a derrotar as forças do Eixo no norte italiano. Todas as unidades aéreas aliadas no teatro foram acionadas para uma maciça campanha de bombardeios e ataques contra as tropas e a logística alemã em retirada. O 1º Grupo de Caça teve participação decisiva nessa ofensiva, especialmente durante o mês de abril de 1945. Entre os dias 6 e 29 de abril, os brasileiros realizaram cerca de 5% de todas as missões de ataque executadas pelas Forças Aéreas Aliadas na Itália, mas responderam por uma parcela muito superior dos resultados: estima-se que destruiram ou danificaram 15% de todos os veículos motorizados inimigos, 28% das pontes, 36% dos depósitos de combustível e incríveis 85% dos depósitos de munição atacados no período. Esses números impressionantes evidenciam a eficácia e o arrojo dos pilotos do 1º GAvCa na etapa derradeira do conflito.

 

 

22 de abril de 1945: o auge das missões de combate

Em meio à Ofensiva da Primavera, 22 de abril de 1945 despontou como o dia de maior empenho operacional do 1º Grupo de Caça e, consequentemente, da FAB em todo o conflito. Desde cedo naquela manhã de domingo, os “Jambocks” – como se autodenominavam os pilotos brasileiros – decolaram repetidas vezes para golpear alvos nazifascistas ao longo do Vale do Pó. Ao longo do dia, a unidade cumpriu onze missões de combate, totalizando 44 surtidas (decolagens), um recorde absoluto para o grupo em um único dia.

Com apenas 22 pilotos em condições de voo, foi necessário que alguns realizassem até três saídas cada para dar conta de todas as missões planejadas. Os P-47 decolavam carregados com bombas de 500 lb e foguetes, além do armamento fixo de oito metralhadoras .50, atacando objetivos pré-definidos como pontes, estradas, concentrações de veículos e posições defensivas. No retorno a Pisa, frequentemente buscavam alvos de oportunidade, engajando qualquer movimento inimigo que avistassem no caminho de volta. Apesar do intenso esforço, as perdas naquele dia foram mínimas: apenas um piloto brasileiro foi abatido em 22 de abril de 1945. O Tenente Marcos Eduardo Coelho Magalhães teve seu P-47 atingido por fogo antiaéreo e caiu atrás das linhas inimigas, sendo feito prisioneiro – felizmente, seria libertado pouco depois com o término da guerra. Os demais aviadores pousaram em segurança, exaustos porém vitoriosos, após enfrentar riscos extremos a cada incursão. Relatos históricos registram que o calor dentro do cockpit, somado à tensão constante e ao esforço físico de pilotar em combate, fazia cada piloto perder até dois quilos de peso por missão devido à desidratação.

A ameaça de não voltar era real: além da artilharia antiaérea inimiga sempre presente, voava-se muitas vezes a baixa altitude para maior precisão nos ataques, tornando os aviões vulneráveis. Ainda assim, nenhum brasileiro recuou diante da missão. Ao fim daquele dia histórico, o balanço de destruição imposto pelo 1º GAvCa ao inimigo foi impressionante: 97 veículos motorizados destruídos ou seriamente danificados, 35 veículos de tração animal destruídos, além da destruição de um parque de viaturas (oficina/garagem) e 14 edificações ocupadas pelo inimigo. Outras 17 viaturas motorizadas ficaram avariadas, bem como uma ponte de barca e uma ponte rodoviária atingidas; também foram atacadas várias posições militares inimigas adicionais. Os brasileiros haviam, literalmente, varrido do mapa boa parte dos meios de transporte e suprimento dos alemães na área, contribuindo diretamente para desorganizar a retirada inimiga. O extraordinário esforço de 22 de abril de 1945 mostrou-se crucial para o sucesso das operações aliadas no setor italiano. A superioridade aérea aliada já era estabelecida naquele momento – desde o final de 1944, a Luftwaffe praticamente não operava mais na Itália, deixando às unidades de caça Aliadas a tarefa principal de ataque ao solo. Nessa função de apoio tático, o 1º GAvCa destacou-se.

Suas ações nesse dia e nos adjacentes ajudaram a impedir que as forças alemãs em retirada reorganizassem uma linha defensiva ao sul dos Alpes, acelerando assim o colapso final das tropas inimigas na Itália. De fato, poucos dias depois, em 2 de maio de 1945, os alemães se renderiam incondicionalmente no teatro italiano. Os pilotos brasileiros, portanto, tiveram participação direta nessa vitória aliada, ao custo de 5 mortos em combate e 5 prisioneiros durante toda a campanha aérea (baixas acumuladas do grupo entre 1944-45). A coragem e habilidade demonstradas pelo 1º Grupo de Caça renderam elogios dos comandos aliados e deixaram uma marca indelével na história militar brasileira.

 

Legado histórico, memória e homenagens

Encerrada a guerra, o 1º GAvCa retornou ao Brasil em julho de 1945, sendo incorporado à estrutura permanente da FAB. Os veteranos traziam na bagagem uma experiência de combate inédita para a aviação brasileira, e rapidamente se tornaram os difusores de uma nova doutrina de Aviação de Caça dentro da Força Aérea Brasileira. Sob a liderança do agora Tenente-Coronel Nero Moura, o grupo baseou-se na Base Aérea de Santa Cruz (Rio de Janeiro) e passou a treinar novas gerações de pilotos de caça, aplicando as lições aprendidas nos céus da Itália.

O prestígio adquirido também abriu caminho para a modernização do equipamento: em 22 de maio de 1953, pouco menos de uma década após o fim da guerra, o 1º Grupo de Caça introduziu os primeiros jatos na FAB – caças Gloster Meteor de fabricação britânica – inaugurando a era da aviação a jato no Brasil. Décadas depois, em 1975, a mesma unidade entraria na era dos supersônicos ao reequipar-se com caças Northrop F-5E Tiger II. Ao longo dos anos, o 1º GAvCa manteve-se ativo e pronto, evoluindo em meios e táticas, mas sempre reverenciando as tradições forjadas em combate. Hoje, passado 80 anos, o 1º Grupo de Aviação de Caça permanece em operação na FAB baseado em Santa Cruz (RJ), honrando o legado de seus antepassados da Segunda Guerra.

O legado dos “Senta a Púa!” – o lema imortal do grupo, estampado sob a figura de um avestruz empunhando um revólver no distintivo da unidade – transcende as estatísticas de combate. A atuação do 1º GAvCa na Itália foi reconhecida internacionalmente e tornou-se motivo de orgulho nacional. Em 1986, por exemplo, o grupo recebeu dos Estados Unidos a Presidential Unit Citation, tornando-se a terceira unidade estrangeira no mundo (e única da América Latina) a ser condecorada com essa medalha de unidade de alto prestígio. No Brasil, o Dia da Aviação de Caça (22 de abril) passou a ser comemorado todos os anos pela Força Aérea com cerimônias militares e tributos aos veteranos. Uma tradição curiosa mantida pelos pilotos de caça é a encenação da chamada “Ópera do Danilo”, inspirada na história real do Tenente Danilo Moura (assistir ao vídeo abaixo), que após ser abatido conseguiu escapar a pé por 24 dias atrás das linhas inimigas até retornar à base – esse episódio de bravura é relembrado anualmente em tom de camaradagem no Dia da Aviação de Caça. A memória institucional do 1º GAvCa também é preservada em museus, livros e documentos históricos: diversos dos seus integrantes escreveram memórias, casos do célebre livro “Senta a Púa!” (1980) do veterano Brigadeiro Rui Moreira Lima, entre outras obras.

Em um Brasil que até então pouco participara de conflitos globais, a jornada do 1º Grupo de Aviação de Caça na Itália representou um rito de passagem e um motivo de afirmação nacional. Aqueles aviadores audazes, vindos de tão longe para lutar contra a tirania, provaram em combate o valor e a competência da Força Aérea Brasileira nascente. O 22 de abril de 1945 permanece, 80 anos depois, como símbolo máximo dessa herança – um dia de sacrifício e glória que elevou para sempre o patamar da aviação de combate do Brasil. Conforme lembrado nos registros oficiais da FAB, naquela data o 1º GAvCa “atingiu o auge” de sua atuação, deixando um exemplo de profissionalismo e coragem que continua a inspirar os militares de hoje. “Senta a Púa!”, o grito de guerra entoado pelos pilotos brasileiros enquanto mergulhavam contra o inimigo, ecoa ainda hoje como parte indelével da história da FAB – uma história escrita a sangue, suor e bravura nos céus da Itália.





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